400Uma recente discussão acirrada vi enfrentar-se pontos de vista radicalmente opostos entre os seguidores do conhecido fórum Karate.net. Em debate foi amplamente comentada a postura de uma carateca brasileira de confissão evangélica que se negou a curvar-se e a saudar o retrato de Gishin Funakoshi, fundador do Caratê moderno. Sua fé sendo o motivo de não aceitar tal reverencia a uma imagem ou uma representação qualquer, sendo apenas perante a Deus que podia aceitar curvar se ou fazer reverência.

Para muitos dos participantes na discussão, a postura da praticante, faixa verde na modalidade, não podia justificar outra resposta que a imediata exclusão do Dojo pelo simples motivo do descumprimento das suas  regras e tradições. Para outros, tal exclusão poderia ferir a liberdade de religião e desgastar a  liberdade de culto garantida a todos no Brasil, direito fundamental inclusive formalizado na própria Constituição do país.  Assim sendo preservado, em função de uma escolha puramente individual, o direito de negar-se  ao cumprimento de certas obrigações. opção protegida pelo direito a liberdade de opinião.    Para outros enfim, tal obrigação de cumprimentos é inútil e desnecessária pois respondendo a uma ética oriental bem longe dos nossos modos e das nossas preocupações de vida ocidental.

Bem longe de querer questionar qualquer liberdade fundamental, e principalmente religiosa,  esse debate permanece uma discussão estéril,  pois faltando de alguns fundamentos essenciais.  Alias, rapidamente virou numa troca de argumentos em pro ou não da religião, e como se sabe nesse tipo de argumentações,  sempre vem a triplica suprema  afirmando que “de religião – e de política- nunca se discute” (teoria particularmente idiota pois são justamente esses uns dos temas mais importantes dos quais devemos sempre nos preocupar).

Assim consideramos o assunto,  pois  as artes marciais,  suas tradições, práticas, valores e pensamentos devem ser enxergadas como um todo. Não podemos assim aceitar certos ensinos e deixar outros na porta do lugar de treinamento. Alias, para quem treina com sinceridades as artes marciais, não existe nenhum lugar restrito para exercitar-se. Pois o mundo inteiro vira seu dojo.

Querendo ou não, as artes marciais de origem asiáticas são fortemente influenciadas pelas culturas, modo de pensar e comportamentos desses pais. Aceitar de submeter-se a certos ritos não significa proceder a um julgamento de valor, estabelecendo uma suposta escala de preferências entre uma cultura e  outra. Apenas significa respeitar uma tradição, como respeitamos um lugar de culto cristão ou uma sinagoga quando retiramos ou colocamos nosso chapéu ou nossa kipa entrando em tais lugares.

O fato de inclinar-se frente a uma foto não é símbolo de idolatria, mas sim de respeito a uma tradição . Ora a foto do mestre fundador ou do sensei ,talvez já falecido, mas que fundou o dojo,  não deve apenas ser  enxergada como representação de uma pessoa. É acima de tudo, o símbolo de um espírito, de uma linhagem, de uma comunhão de pensamentos, a marca de um inconsciente coletivo no qual é integrado o praticante assim que ingressa numa pratica ou num grupo.

Estudar e treinar certas modalidades requer aceitar regras e considerar legítimos alguns dos seus comportamentos. Quem persistir em negar o cumprimento dessas regras deve seriamente se perguntar se não faria melhor de jogar dominós ou treinar crochê. Alais, serão  modalidades  tão valiosas  no dia que se sentirá  o peso de respeitar certas valores universais, e imprescindível o fato de abaixar a cabeça frente a sua insignificância em comparação à grandeza do mundo infinito. Nesse sentindo, cumprimentar ao mestre é cumprimentar a se mesmo e a todos os outros companheiros de luta e de treino.

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