kyudo2O ensino nas artes marciais esta fundamentado na maior parte do tempo sobre a repetição na execução incansável das técnicas.

Essa pedagogia da repetição é comum a todas as artes. Simboliza o verdadeiro espírito do budo. Um mestre zen,  Shunryu Suzuki, escreveu  sobre o assunto: ” Caso perder o espírito da repetição, todo será mais complicado… A verdadeira prática é baseada sobre o eterno recomeço até termos o sentimento de ter achado. Nosso caminho deve ser apenas praticar (…).

Essa repetição pode desgastar a motivação principalmente quando não é percebido nenhum avanço pessoal. E. Herrigel, professor alemão de filosofia que ensinou no Japão entre 1924 e 1929, também escreveu sobre o assunto num livro consagrado ao Kyudo ( “ A arte cavalheiresca do arqueiro zen” Editora Pensamento ) arte marcial que ele estudou sob a direção do mestre Awa Kenzō: “ Varias semanas se foram sem que eu tivesse o sentimento de ter progredido de maneira sequer. No entanto, reparei que eu não ficava afeitado por isso. A arte em se não me importava mais não? Aprender, descobrir ou não o que o mestre designava com “aquela coisa”, achar  o êxito do Zen, todo isso parecia de repente ter se afastado de mim, ficando tão longe de mim que eu não sentia então mais vontade de parar para refletir a respeito. Eu pensava cada vez falar a respeito com o mestre,  mas assim que eu ficava na frente dele, lá  ia embora toda minha coragem; eu estava convencido que a única resposta que ele podia me dar seria essa objeção muitas vezes falada: ”Não pergunte, treine”. Assim renunciei em perguntar e se o Mestre não me tivesse segurado também teria desistido dos exercícios físicos. Sem voz, passei de dias para outros, cumprindo mais ou menos minhas responsabilidades profissionais, e não fiquei mais preocupado de reparar toda minha indiferença para tudo o que já tinha gastado tanta energia e tamanha perseverança…”   

 Esse ponto evidencia a unicidade entre as artes marciais e o trabalho espiritual no Do, pois praticar uma arte marcial é em se uma atividade que desenvolve “o espírito justo”, sem idéia de progresso, de aquisição, totalmente voltada no momento presente.

Digamos que sua pratica deve existir sem vontade de aquisição, sem expectativa, nem do Satori (Iluminação)” explica Mestre Suzuki. ” “Quando você se entregue,  para de querer alguma coisa e tenta de não fazer algo de particular, você passa então a fazer algo. Quando seus atos não incluem essa vontade de adquirir, você passa então a fazer algo. Caso perseverar nesse caminho diariamente, atingirá uma potencia maravilhosa…  Basta ter sinceridade  e dedicar-se ao esforço de cada instante…

A repetição é assim uma dupla ferramenta pedagógica que permite adquirir a técnica apenas pela imitação do mestre e do espírito justo. A vontade desgasta-se e perde sua motivação na repetição e pouco a pouco desaparece a vontade de progredir. È um processo lento, imperceptível, que ocorre a longo prazo :

Na neblina, você não percebe que você começa a ser molhado, porem, enquanto caminhando, pouco a pouco você é molhado. Se você mantém um pensamento de progressão, você poderá até pensar: “ Oh! Como meu ritmo de aprendizagem é lento!  Na verdade não é o caso. Quando você fica molhado na neblina, é muito complicado de secar sua roupa. Inútil portanto de preocupar-se com a idéia de progressão.” (Mestre Suzuki)

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