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artes-marciaisAfinal o que é uma arte marcial? Uma simples técnica de luta? Uma receita para se tornar mais forte? Um esporte? Podemos considerar que uma mesma palavra pode englobar dois sentidos diferentes? Acreditamos que um método de luta é uma modalidade desportiva como outras. Mas a arte marcial é  diferente pelo  conteúdo e pelo que traz para o  praticante. No esporte de combate apenas procura se determinar quem é o melhor num certo espaço de tempo  (um campeão sempre deverá provar que ainda merece o titulo). A a arte marcial tem um propósito diferenciado…

Analise terminológica:

A palavra arte marcial é composta de duas partes: arte e marcial.

A-      Arte considerada do domínio  marcial…

Falar que uma arte marcial é uma coisa marcial é redundante. Mas o que é então uma coisa marcial? A palavra marcial leva para Marte, o Deus Romano da guerra e evoca no seu sentido mais amplo qualquer forma de conflitos entre duas vontades, duas pessoas físicas ou morais, dois pontos de vista. Todavia quando falamos de artes marciais apontados menos para a arte em se que para o aspecto mais visível do encontro, da luta física entre duas (ou mais) pessoas. Essa confusão chega ate  restringir o uso da palavra para as artes marciais do oriente.

Se, todavia, preferimos  o sentido mais abrangente da expressão “arte marcial”, e se escolhemos não apenas enxergar um conjunto de técnicas ou estratégias “físicas”, a noção de arte marcial acha sua origem em qualquer situação de conflito. Até que ponto um advogado ou um jogador de xadrez de alto nível não são também artistas marciais já que cada um dessas pessoas vai travar uma luta contra um adversário recorrendo  a conhecimentos específicos, pensamentos, pericias diversas (em vez de usar força física…)

Um exemplo dessa visão é o Shogi[x1] , essa declinação do jogo de xadrez considerada arte marcial no seu país de origem, o Japão. Assim existem dojo de shogi, ligas profissionais, protocolos e regras de comportamento, e basta entrar em algumas partidas com total determinação ou assistir jogo de alto nível para não mais duvidar da natureza marcial da modalidade, na qual a tensão na oposição das vontades é facilmente perceptível até por um leigo.

Ao contrário, a forma já conhecida de certas artes marciais pode a primeira vista não ser considerada marcial. Quando presenciamos formas do Tai Chi Chuan, principalmente  mais que outras da escola Yang que são muitas lentas, chegamos a questionar se deparemo-nos   com uma forma de ginástica ou de arte marcial. De fato, muitos praticantes de Tai Chi Chuan não consideram sua arte como arte marcial senão uma ginástica tendo como fim buscar mais saúde. Qualquer que seja o modo de enxergar, o Tai chi chuan apenas será completo se for estudado as técnicas Sanchu, expressão marcial da arte…

B-       Arte como modalidade artistica

O particularismo mais freqüentemente esquecido é justamente o lado artístico doimages conceito. Pois se nas artes orientais, esse particularismo aparece muito mais através a pratica dos katas ou formas (taos), temos mais dificuldade para reconhecer isso no xadrez ou nas técnicas marciais ocidental. É que temos em toda aparência uma concepção diferente, uma relação outra com a noção da arte. Consideramos de inicio a necessidade estética  da  arte, relacionando- a com critérios de beleza que dificilmente enxergamos na movimentação do boxe inglês. Mas o aspecto artístico não deve ser enxergado apenas como aspecto estético mas sim ser entendido como forma de expressão da personalidade do praticante que deve, com os recursos da arte, expressar quem ele é e o que ele sente. Assim,  o próprio de qualquer  arte marcial parece por tanto deixar liberalidade e liberdade de interpretação e crescimento livre passado certo grau de conhecimento. Os fundamentos da arte, os katas, as regras apenas definem um quadro para o iniciante adquirir um conhecimento básico e necessário.

Nesse quadro básico, o aluno deverá achar seu próprio caminho, percorrer sua própria trilha, a mais adaptada a sua morfologia, a sua personalidade, ao seu estado emocional. O melhor exemplo disso é no Wushu chinês no qual o aluno deve criar suas próprias rotinas, os “taos” (ou taolu) sendo apenas rotinas de referências.  O  jogador de xadrez terá assim uma estratégia própria que ele adaptará em função do seu oponente porém desenvolverá sua arte privilegiando agressividade ou defesa, velocidade de movimentação ou firmeza na ocupação do tabuleiro.

 C- Da luta até a arte

A arte marcial é uma modalidade portanto norteada por esses duas reflexões e não deve desconsiderar nenhuma das duas ou privilegiar uma da outra. Assim podemos diferenciar esportes de combate e artes marciais, sendo essas uma forma de luta, ou seja,  a expressão de um antagonismo seja físico, como acontece em numerosas modalidades conhecidas , seja puramente racional porem conduzindo o praticante a expressar e adapta-se. Sendo originalmente um simples meio de auto defesa, as artes marciais evoluíram, no entanto, para torna-se um meio de afirmação do praticante, as sua identidade, de seu pensamento e estado emocional.

Disso deduzimos que a pratica de uma arte marcial não autoriza o praticante a virar mais forte, ou saber como se defender mas sim também ir a descoberta dele mesmo,   dos seus limites, dos seus receios ou medos e assim fazendo a certa introspecção da sua pessoa. Pela pratica da arte marcial, o artista marcial auto analise-se,  os katas e atividades  relacionadas sendo apenas ferramentas para chegar a essa descoberta.

Também deduzimos que as artes marciais não se limitam a lutas físicas violentas quando podem caracterizar qualquer encontro de oponentes desejando confrontar suas personalidades.  Distinguiremos, portanto, nessa fase da nossa reflexão,  as artes marciais físicas fundamentadas sobre um contato físico e as artes marciais racionais fundamentadas sobre o confronto dos pensamentos. No entanto, de modo geral, a palavra arte marcial sempre será utilizada para as modalidades da primeira categoria.

D- Objetivos das artes marciais

18102_438366139560605_287631926_nAs artes marciais também podem ser definidas pelos objetivos procurados e por o que elas podem trazer aos praticantes. Diferenciaremos o que trazem as artes marciais e os objetivos obviamente procurados pelos praticantes, ambos facilmente identificáveis, e os benefícios mais ocultos bem como os objetivos não declarados que necessitam um investimento pessoal e uma introspecção maior do praticante.

 1-Objetivos físicos:  O principal objetivo ou beneficio é obviamente a preservação física  do praticante.. Mesmo parecendo paradoxal em caso de pequenos acidentes ocorrendo durante a pratica, a preservação da integridade física e o primeiro de todos os objetivos geralmente declarado, a pratica da arte marcial autorizando a desenvolver recursos para proteger e reforçar o corpo. Lembramos que o monge Boddidharma, quando chegando no monastério de Shaolin, ensinou aos monges reclusos técnicas e exercícios físicos para melhor agüentar o rigor da prática monacal, porem ensinou as mesmas técnicas afim de autodefesa dos reclusos contra os ataques freqüentes de ladrões e assassinos.  A aprendizagem da auto defesa assim  permanece na origem de quase todas as artes marciais. Desde as origens do tempo, os homens procuraram sobreviver e defende-se de condições adversas. Pouco a pouco desenvolveram e afinaram técnicas, para exportar, ensinar e adapta as. Assim criaram centro de instruções de artes marciais. Desde então as artes marciais continuaram com esse lado combativo cujo objetivo primeiro é ensinar ao aluno recursos de auto defesa em caso de agressão bem como proteger sua vida, ou dos outros; aprendendo  para isso como adaptar e usar seu corpo como se fosse uma arma.

Lembramos que um das artes marciais mais objetivas é o “Krav Maga”, que foca sobre a sobrevivência e pouco se preocupa  do destino do adversário.

Certas artes marciais perderam, no entanto, dessa natura original e adotaram valores filosóficos como, por exemplo, o Kyudo ( Tiro com arco estreitamente relacionado com o pensamento Zen ) ou certas escolas de Tai chi chuan cujo aspecto marcial fica de propósito ignorado pelos próprios professores.

Todavia, o caráter marcial pode sempre ser muito rapidamente lembrado por praticantes a sua procura. Destacamos que numerosos praticantes de “Wing Tsun” (estilo de kung fu popularizado por Hip Man e mais tarde seu aluno mais famoso Bruce Lee) possuem antes braços muitos robustos. Por esse fato, muitos deles tem a capacidade de quebrar matérias muito duros mesmo sendo insuficiente esse único motivo para estudo da modalidade. É por tanto um fato que a pratica marcial ajuda a reforçar o corpo. São inúmeras as melhorias trazidas por essa pratica. Num ponto de visto muscular, a arte marcial autoriza um crescimento generalizado da massa muscular de quase todo o corpo e também favorece uma maior  flexibilidade principalmente nas artes marciais asiáticas ou inspiradas por elas. O treinamento também favorece os reflexos dos praticantes, a capacidade de concentração, a precisão dos movimentos apos incansáveis e exaustáveis repetições dos mesmos movimentos. Comenta-se que é o próprio corpo que deve agir ou reagir e que o domínio da técnica aparece quando desaparece o pensamento acima da técnica, ou quando o praticante até esquece a técnica…

Por fim as artes marciais reforçam o corpo. Devido aos chutes e golpes, ossos, músculos e órgãos são mais sólidos e menos sensíveis a dor

2- Objetivos morais. Esse ponto necessita uma maior implicação pessoal do praticante. As artes marciais permitem descobrir certo conjunto de  valores morais que quando analisadas permitem entender melhor o sentido profundo das artes marciais. No entanto, mesmo sem ser praticada num alto nível, a arte marcial sempre traz valores ultrapassando o simples quadro da pratica marcial. Em primeiro lugar,  ensina a disciplina, a perseverança e a coragem base para qualquer aprendizagem tendo por foco o crescimento corporal. Porem porque é mais uma disciplina pessoal, a arte marcial traz o praticante a criar esses valores e aceita-as, ou não.  A maior parte do tempo os alunos são submetidos apenas a um mínimo de disciplina, porem reparemos que esse valor é a chave para uma evolução rápida na modalidade escolhida. Uma pratica seria e regular sempre traz bons resultados até para pessoas com grandes dificuldades.

Outro parâmetro que leva ao elemento disciplinar da arte marcial são as saudações e o cumprimento do protocolo que são uma constante nas diferentes modalidades, com mais ou menos rigor, mas obriga o praticante a respeitar certos ritos.

A arte marcial traz o sentido da honra e do respeito do outro. Esses são os pilares de um recado  profundo. Mesmo quando poucos professores ou mestres usam a palavra honra, a mesmo faz parte da natureza intima das artes marciais e muitos praticantes estão preocupados com ela. Assim funciona com o respeito. É configurado a traves a saudação do parceiro de treino, com a proibição de certas atacas e pela consideração que se deve dar ao companheiro de luta. Na imagem que muitas pessoas tem das artes marciais (principalmente japonesas), as noções de respeito e honra são primordiais. Outras palavras tal como Dojo ou Budo chamando também uma imagem seria  e rígida da arte marcial.

E- Escola da paz

Com certeza, é um dos pontos mais paradoxal para os leigos. As artes marciais que cresceram acima da confrontação das vontades e do desejo de auto defesa tiveram na suas evoluções um rumo diferenciado quando transformaram se em escola de paz com tendências em pacificar os praticantes. Com constantes exercícios elaborados acima da oposição das vontades, os praticantes acabam compreendendo que o verdadeiro interesse nunca será de entrar em conflito aberto com o uso da violência. Essa solução torna se o último recurso possível e apenas devera ser escolhida para sua própria defesa ou para a proteção de outra pessoa.

Mas lembramos também  que toda uma terminologia belicosa permanece. Quando descobrindo a pratica do Iaïdo (arte de sacar a espada para responder a agressão de um ou vários adversários) o iniciante de entrada  aprende que o saco da espada é irreversível. Ela  deve apenas ser usada para o uso pelo qual foi concebida: matar o mais rapidamente e com mais precisão possível. É justamente desse espírito que esta impregnado o karateka quando, transformando sues braços e antes braços em verdadeiras espadas, ele deve tentar golpear seu adversário como se cada técnica fosse a única, a última e a mais letal possível! Ikken hissastu : um golpe definitivo !

Esses aspectos  ainda transparecem na evolução terminológica das artes marciais que passaram de JUTSU  para DO. Quando as técnicas dos JUTSU são muitas mais belicosas com objetivo declarado de matar o adversário, os DO são virados paras objetivos mais filosóficos e construtivos ( sem nunca esquecer a eficiência nas técnicas).

Certas artes marciais, no entanto, sofreram dessa evolução ate quase perder suaarton5 essência. O mais obvio exemplo disso é o Kendo. Se nas suas raízes, o Kenjutsu era a técnica planejada da espada para matar o adversário golpeando os pontos fracos da armadura dele,  o Kendo de hoje acerta as partes mais fortes da armadura ainda utilizada e não chegaria, do jeito  hoje praticado, a levar a morte o adversário. Isso é relacionado com as originas do Kendo e a sua evolução. O Kendo aparece com a unificação do Japão em 1603 por Ieyasu Tokugawa. Assim chegando ao título de Shogun e para prevenir uma nova era de guerra civil, procurou um método para canalizar a energia da casta guerreira.  É nesse contexto que pouco a pouco aparece o Kendo.  Ao contrario das técnicas de Kenjutsu, autorizava lutas mais seguras entre praticantes de tal modo a limitar a agressividade dos Samurais. Pouco a pouco se foram as técnicas tradicionais de tal modo que fora alguns Koryus específicos tal como  Katori shinto ryu o Kenjutsu quase desapareceu. Essa evolução caracteriza o excesso de pacificação de uma técnica marcial A maior parte das artes marciais no chegaram a esse ponto e preservaram um espírito marcial porem com novas orientações mais filosóficas. É exatamente na compreensão desse paradoxo que existe todo o mistério e a essência das artes marciais. Outro ponto para ser destacado é que na maior parte dos “katas” ou “tão” (inclusive em Karatê) as seqüencias iniciam com técnicas de defesa.

As artes marciais por todas essas razoes permanecem artes de combate, favorecendo no entanto o crescimento de valores que permitiram criar outro individuo, outro homem, outro cidadão nas suas dimensões físicas, mas principalmente moral e espiritual. Não se trata de apenas favorecer e desenvolver  uma armada de chute e pontapé que um dia irá configurar  a desgraça  da humanidade e a vitoria da animalidade. Mas se trata sim de semear na alma dos homens essa convicção que todo pode e deve ser feito para o não uso dessas técnicas.


 [x1]O Jogo occore num tabuleiro de 9 sobre 9 quadrinhos  de cor  única. A aparência  das pedras e similar as peças do jogo de GO . Cada um dos jogador movimenta suas pedras alternativamente . O objetivo é capturar o rei adverso. Alternativamente, cada jogador pode escolher movimentar uma pedra, ou reintroduzir nas suas tropas uma pedra capturada do adversário.

Cada pedra tem uma movimentação específica. Caso uma pedra chega a parar sobre um quadro ocupado por uma peça do oponente, essa pedra é presa.

Ao contrario do jogo de xadrez por tanto, as pedras capturadas permanecem na reserva do jogador que captura-as. Essa reintrodução também traz mais dinamismo ao jogo pois as pedras capturadas podem ser reintroduzidas a qualquer momento seja para reforçar a própria defesa seja para ameaçar o oponente..

Essa possibilidade de reintroduzir em qualquer campo as pedras do jogo explica porque as referidas pedras são da mesma cor : elas divergem apenas pela direção na qual estão orientadas.

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