Eu tive a grande oportunidade  de encontrar certo dia um homem, Helio Simões de Matos, que se anunciou professor de artes marciais, mas que logo, no seu discurso e postura, mostrou ser muito mais que isso. Foi o inicio de certa viagem, que felizmente ainda não acabou, durante a qual o mesmo me mostrou e me ensinou muito mais que um conjunto de tecnicas podendo ser utilizadas em situações extremas, e com a ajuda de quem progredi no caminho que deveria ser sempre aberto mas que poucos sabem ainda ensinar: ser justo, fiel, humano e determinado na vida.

Professor Hélio Simões, o Senhor é uma das primeiras faixas pretas de Karatê do estado de Pernambuco. Conte como chegou a essa modalidade, também treinando outras artes marciais, e em que momento entendeu que eram os caminhos do Karatê que iria trilhar por toda a vida.

Shihan Helio Simões de Matos

Iniciei meus estudos sobre as artes marciais com o Judô. Embora tendo gostado muito dessa modalidade de luta e treinado durante aproximadamente dez anos, eu fiquei impactado por uma demonstração de Karatê que me cativou efetivamente, me levando a estudá-lo desde a segunda metade da década de sessenta até os dias atuais. Em setembro de setenta e três (já graduado em Karatê) eu comecei a treinar o Taedwondo até o inverno do ano seguinte.

 Nesses longos anos de treinamento, você encontrou e conheceu algumas sumidades da modalidade. Qual é a personalidade (professor, mestre, atleta) do mundo do Karatê que mais lhe influenciou e por quê?

Todos os atletas e professores que cruzaram o meu caminho foram responsáveis pela formação do mosaico que hoje compõe o meu conhecimento técnico; entretanto, Juichi Sagara, Juarez Alves e Teruo Furusho foram os que mais me impressionaram em face da retidão de caráter e sensibilidade que sempre foi a marca registrada desses professores.

 Com certeza após tantos anos de ensinamento, também acompanhou o “nascimento” e o “crescimento” de uma quantidade impressionante de alunos. Você tem o sentimento de ter continuado a aprender deles depois de todos esses anos?

Claro, todos os dias eu saio de casa para ensinar e, sobretudo para aprender, e nesse processo de ensino-aprendizagem todos os meus alunos são à base desse processo.

 Afinal, você prefere se definir como treinador, mestre de Karatê, educador ou altruísta?

Eu me identifico como educador (que utiliza o Karatê como ferramenta para a edificação da humanidade).

 Já escutei você falar repetidamente que tinha (tem) a convicção que foi Deus que lhe deu essa oportunidade de ensinar o Karatê, que você foi feito para isso. Isso configura, na sua visão, o Karatê ser uma ferramenta de evangelização?

 Sim, como cristão eu não poderia perder a oportunidade de usar o Karatê como uma ferramenta para a evangelização.

 Nas suas aulas você faz questão de misturar perfis, idade e competências diferentes. Isso não vai à contramão de milhares de atuais praticantes que se preocupam principalmente com a performance desportiva? Isso não complica também a montagem das sessões de treinamentos?

É claro que trabalhando com um grupo heterogêneo há uma perda no que se refere ao condicionamento físico; entretanto se ganha em bem estar e eliminam-se as barreiras de outros apartheids.

 O bom treinamento deve provocar conflitos e suscitar dificuldades para gerar progresso, ou nunca deve ultrapassar os limites do praticante? Os conflitos precisam ser constantemente renovados?

O bom treinamento é baseado em estímulos adequados que levam a homeostase (adaptação) que gera resultados positivos. E para continuar havendo adaptação é preciso que os programas de treinamentos sejam renovados sistematicamente.

 O treinamento “tradicional” no Karatê sempre foi apoiado sobre a repetição constante de movimentos, num estilo quase militar. Com certeza foi assim ensinado no intuito de desenvolver a musculatura básica e criando o automatismo, o condicionamento. Foram nesse formato que os mais graduados que atuam no Karatê brasileiro se desenvolveram (excluindo dessa categoria os graduados pela mentira e pela ganância). Porém, se fosse mantido tais tipos de treino creio que não teria mais ninguém praticando essa modalidade de luta.

Só através dos exercícios repetitivos é que é possível se lapidar uma técnica e criar um condicionamento adequado. Quanto ao imediatismo que caracteriza a maior parte dos professores atuais e atletas de competição, fatalmente transforma o Karatê-defesa-pessoal numa modalidade ineficiente enquanto luta e que em nada lembra a arte marcial criada por Gichin Funakoshi.

 E para quem se encontra na impossibilidade de ter um parceiro ou grupo, como fazer para treinar e manter o seu crescimento?

 O kihon e o Kata são engrenagens poderosas para o aprimoramento de um karateca que quer continuar se desenvolvendo sem parceiro ou grupo.

 O Karatê tomou nesses últimos anos um rumo puramente mercantil e desportivo, privilegiando resultados e dinheiro, desprezando o crescimento moral e espiritual. O que podemos fazer ainda para resgatar e não permitir que o Karatê se perca definitivamente?

Para que o Karatê não se perca definitivamente é preciso que resgatemos a defesa pessoal tão bem delineada em suas técnicas, e quando participarmos de uma competição não devemos esquecer as questões filosóficas e morais que constituem a essência dessa nobre arte secular japonesa.

Que Deus abençoe a todos!

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