Embora incluído na sociedade civil e respondendo portanto, tal como qualquer cidadão, às leis e preceitos morais da mesma o praticante de arte marcial da era moderna está logo integrado, ao iniciar seu treinamento, numa tradição moral e filosófica antiga cuja fiel transmissão no decorrer dos séculos autorizou o resgate e a perenização de valores seculares sem os quais a prática de tal ou tal sistema de luta poderia perder  essência moral, espiritual e filosófica, distinguindo-a de simples briga de rua.
Lembramos, conforme ao que esta bem sintetizado em outras paginas, que as arte marciais « são um conjunto de técnicas, filosofias e tradições de combate. Cada arte marcial é herdeira de uma determinada tradição e constitui um todo coerente em que as técnicas são devidamente enquadradas por conceitos filosóficos e por rituais tradicionais. Em cada especialidade ou luta, temos a graduação em níveis de acordo com a evolução do praticante tanto no nível físico (técnicas) como no nível filosófico” (fonte wikipedia)
No karatê, a importância do caráter moral e educacional é ainda mais ressaltada pois responde às próprias preocupações dos mestres fundadores. Bem como o Shihan Hélio Simões, professor do autor desta matéria, lembra no seu Curso de formação para Faixa preta, ” …o karatê não se trata apenas de um sistema de luta com as mãos desarmadas, mas de uma arte…complexa…que modela… a estrutura do caráter dos seus praticantes“. Aliás, lembra ele nesse mesmo trabalho sintético  que essa preocupação esta incluída na gênese e na estrutura dos ensinamentos e pensamentos da arte, podendo ser melhor entendido através das explicações de dois mestres famosos e conceituados do Karatê.

O primeiro, mestre Masatoshi Nakayama, sucessor direto do próprio fundador da escola de karatê de estilo Shotokan, escreve: “O objetivo principal do karatê não é decidir quem é vencedor e quem é o vencido. O karatê é uma arte marcial para o desenvolvimento do caráter por meio do treinamento, para que o karateka possa superar quaisquer obstáculos, palpáveis ou não“. Ressaltando o Professor Tasuyku Sasaki, mestre de karatê e professor lecionando karatê e artes marciais na Universidade de São Paulo: ” Queremos ressaltar que este sentido de preocupação é próprio do karatê… Esta busca permanente de aperfeiçoamento das técnicas de arte marcial ajuda a proporcionar ao individuo saúde, bem estar físico, mental e social. Nos treinos, o praticante de karatê deve ter esta finalidade em mente, caso contrário o treinamento poderá conduzi-lo a frustração…“.
Podemos logo entender que as partes técnicas constituem a parte visível de um iceberg, a eficiência dos golpes sendo de fácil observação. O que no entanto não aparece imediato ao leigo, mas rapidamente chama a atenção,  é a disciplina atrás do treinamento. Essa disciplina pode ser falsamente entendida como uma exigência quase militar para otimizar o treinamento, embora sendo principalmente exigida no treinamento filosófico e moral do praticante.

Podemos portanto imediatamente afirmar que são os conceitos moral e filosóficos bem como as regras tradicionais de conduta que distinguem e diferenciam o praticante de karatê mais do que a eficiência dos seus golpes.
Voltar sobre a totalidade dessas regras e conceitos morais necessitaria da redação de um livro inteiro.

Porém podemos citar para argumentar nosso propósito inicial os conceitos do respeito e da lealde ao mestre.

O respeito é a base das nossas relações. Lembrava justamente o Shihan Helio Simões durante exame de graduação à faixa preta do autor desta comunicação que “Não temos a obrigação de gostar do outro, mas sim de respeitá-lo“; pois o respeito deve constituir a pedra angular do nosso relacionamento com mestres, professores, outros praticantes, mas também com qualquer indivíduo da sociedade civil, pois ele permite a relação harmoniosa entre todos.

Faltando de respeito para com os outros, como exigir deles o mesmo?

A lealdade representa sem dúvida outro elemento fundamental na formação do caráter do praticante de arte marcial. A lealdade é a essência da confiança para com o professor ou o mestre. Ela está inicialmente construída sobre a obediência total para com o mestre, sendo mesmo um pré-requisito imprescindível para a aprendizagem.

Sendo motivado em aprender, devemos esquecer nossa falsa dignidade, curvando se perante o mestre, e , uma vez transmitido o que o mestre julgou necessário transmitir,  sempre lembrandodo o valor desse ensinamento, sempre testemunhando nossa gratidão pelo qual nos tornamos receptores temporários de um saber milenário e quem sabe, um dia, nos tornaremos também multiplicador do mesmo patrimônio.
Chegar na academia de um mestre de karatê já idoso, gritar na frente dele, apontar o dedo e ameaçá-lo de conseqüências graves, caso o mesmo não tome providências imediatas para solucionar tal ou tal situação, é portanto considerado, pela comunidade universal dos caratecas, como um grave desrespeito às regras de conduta moral principalmente, se o autor dos fatos, se dispõe atleta e técnico de karatê, faixa preta e professor da arte.

Antigamente, alunos do mestre ofendido de tal maneira poderiam até ir para o dojo (lugar de treinamento) do provocador para “lavar” a honra perdida do mestre, especialmente do mestre que chegou a certa idade, pois, se tivesse a constituição e a energia física suficiente teria feito o necessário sozinho.
A sociedade civil moderna logicamente não pode autorizar tais comportamentos. Qualquer cidadão não pode decidir fazer justiça própria. Mas a sociedade civil pode entender o peso da tradição e compreender que esse justo sentimento de revolta não é nada mais que uma outra face dos conceitos e princípios morais e religiosos que influenciaram a própria elaboração dos códigos e leis civis e penais nos quais fortalece-se sua própria sobrevivência.

O respeito e a lealdade ensinados nas artes márcias não são conceitos explícitos de textos formais.

Mas caso sendo desrespeitados da maneira tão obvia, isso gera sim grande mágoa e insatisfação na “sociedade” das artes marciais, também integrante da sociedade civil, e podendo portanto reclamar justiça à sociedade dos homens.

Xavier Henri Baudequin

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