A noção de competência em artes marciais também pode ser formulada a través do uso das palavras cognição, pensamento e ação.  O conceito de “pensamento-no-ato” permite delimitar melhor essa noção e articular entre elas essas palavras. Logo, a competência em artes marciais é a capacidade de pensar em atos, ou seja, a materialização do pensamento em atos trazendo o individuo a fazer o que pensa e vice versa. 

Pensar em atos necessita o desenvolvimento de um sistema elaborado de recursos bem como deixar esse sistema operar sem nada acrescentar.

As condições básicas do pensamento-no-ato requer algumas características:

1-o “pensamento-no-ato” necessita uma vigilância inicial, a consciência do momento, logicamente relacionada ao conceito do zenshin, o estado de alerta. Todo pode acontecer e por tanto é preciso sempre estar pronto a qualquer eventualidade. Essa vigilância também significa a consciência de certa perspectiva, de certa atitude ou certeza da existência de um poder de ação. O Kamae, ou seja, o posicionamento ativo frente ao adversário, não significa unicamente mexer braços ou pernas de tal modo a posicionar-se melhor no ataque ou na defesa. O kamae induz principalmente  dar um sentido nesse face a face com o oponente, potencializando-o com um conjunto de recursos disponíveis. Potencializar o kamae significa transformar seus mãos e pés em armas letais.     

2- o “pensamento-no–ato” pressupõe a disponibilidade de uma rede virtual de ações. As mesmas, aprimoradas após anos de pratica e treinamento, são simultaneamente presentes e disponíveis e constituem uma tela de aranha de recursos podendo ser chamado a qualquer momento. Cada um desses recursos permanece focado no alvo, o adversário, e se desencadeia naturalmente. Assim, simultaneamente, e se complementando uns aos outros, esses recursos abortam qualquer reações ofensivas do oponente. De tal modo que fica possível entender “em atos” o outro. “Entender” uma coisa é posicionar-se frente a essa coisa com a possibilidade de agir nela ou sobre ela. É “poder fazer algo”. Quem entende alguma coisa, tem recursos. É hábil na sua relação com ela e pode enfrentá-la. (Cortez)

3- o “pensamento-no-ato” não significa representar-se a realidade, mas sim apresentar-se a realidade. O kamae é o lugar de coabitação das ações disponíveis, a reunião dessa potencialidade virtual, o posicionamento corporal sendo simples materialização dessa virtualidade. Isso significa que as ações não são pensada ou representada mentalmente mas sim diretamente encarnada no kamae personificado por elas. Elas são para a mente o que os batimentos cardíacos são para o corpo e, literalmente, o “espírito logo respira através do corpo” (Damásio). Elas não são viradas para se, pois o individuo que pensa em ato perde a noção do Ego, mas sim para o adversário efetivando e atualizando a presencia do mesmo. Para isso, para materializar essa existência, não adianta representa-se o mesmo e sim apresentar-se a ele, fazer ele existir.  

4-no “pensamento-no-ato” só tem espaço para a ação. Não se deve  portanto pensar mentalmente mas pensar sim com todo seu corpo mentalizado, ser só ação e conectado no instante. Só pensar numa fração de segundo no que pode acontecer é suficiente para cortar os fios intencionais que nos mantém conectado com a realidade, para não mais estar lá, para só estar fluidez, espiando qualquer oportunidade de ataque potencialmente letal.  Focado na ação e não sobre qualquer outra coisa eliminam-se todos os pensamentos negativos, todas as interferências que podem obscurecer ( tal como “ele e forte demais para mim” ou “eu vou vencer facilmente” ou ainda “ ele vai fazer isso e logo irei fazer “assado”…) nossa serenidade na ação.

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