por José Augusto Maciel Torres

 

Gosto de escrever como falo.Escrevo sobre artes marciais e terapias orientais(artigos,livros e revistas) há mais de vinte anos.Depois que tive publicadas 50 obras(livros e revistas) deixei de contar minhas publicações editoriais.Daí sei que tenho muita coisa escrita,mas quantas são,realmente, desconheço.Antes meus artigos e obras(livros e revistas) eram voltados para o ataque pessoal dentro da marcialidade.Hoje, mais maduro, me preocupo com a qualidade dos meus escritos enquanto referencial para o engrandecimento do público que os ler.Consigo,nos dias atuais, dizer o que quero e,principalmente,ter aceitabilidade,sem precisar agredir a terceiros.Algo que faz poucos anos atrás não era comum no que escrevia.

 

 

José Augusto Maciel

José Augusto Maciel

Não me arrependo do que escrevi,de forma nenhuma,o que errei foi na maneira que assim o fiz.Porém sou sabedor de que o escrito por mim era a verdade,pelo menos a que acredito .Mas também é sabido que em determinados momentos da história da marcialidade na Bahia era necessário se expor algumas coisas,de forma forte,para fazer com que os outros se policiassem sobre os erros cometidos.Mas como não sou `palmatoria do mundo“,tudo isso é passado.

 

 

Na verdade nasci em Itapicuru,interior da Bahia,mas meu pai verdadeiro acabou me registrando como natural de Salvador,capital baiana.Digo verdadeiro porque fui criado por um pai adotivo,no qual foi juiz de direito em algumas cidades do interior da Bahia.Devido a este erro no meu registro de nascimento acabei ficando natural,de direito,da cidade do Salvador, local que adoro morar e viver.Minha vida no interior da Bahia foi,em sua maioria,aliada as artes marciais,em especial ao karate.

Morei inicialmente em Valente,a `´Terra do Sisal`´.Depois em 1978 me mudei para Itapetinga,a “Terra do Gado`´.Onde iniciei no karate,estilo shotokan,tendo aulas com o Joan Lemos,iniciando uma trajetória marcial em minha vida que,acredito, deve somente terminar com a minha morte.

Treinava karate com Joan Lemos aliado ao yôga,shiatsu,macrobiótica(muito famosa naquela época) entre outras práticas terapêuticas orientais, e foi neste momento da minha vida que percebi que tinha me ´´casado´´ com as artes marciais.Tornando-me um amante fervoroso delas.A cidade de Itapetinga é de porte médio,não é grande e nem é pequena,é um bom lugar para se morar.Gostei de lá,inclusive pelo fato de neste momento da minha vida ter feito muitos bons amigos nos quais conservo até os dias atuais.Um deles é o Prof. Dr. RAMIRO OLIVEIRA,que é faixa preta em karate,terceiro dan,e autor do conceituado livro HISTÓRIA DO KARATE NA BAHIA(que pode ser adquirido,gratuitamente, no site:www.recantodasletras.com.br),uma grande obra para a marcialidade deste estado.E é também junto com o Ramiro Oliveira que escrevo esta obra.

Com Joan Lemos aprendi não somente o karate como esporte e/ou belicidade,mas sim como um MODO DE VIDA.Sempre o observava fazendo shiatsu em diversas pessoas e acoplando o karate as técnicas do yôga.Ouvia-o constantemente falar do Zen e de uma posição filosófica marcial de cunho espiritual que transcendia os chutes e socos que aprendia na pratica marcial do karate-do.O mais interessante era que a postura de vida do Sensei Joan Lemos é semelhante ao que ele fala.Pois seu comportamento ético e sua educação é um exemplo de vida.Principalmente que em cidades do interior tudo vira fofoca e motivo para se falar mal.E em Itapetinga não é diferente.Este Sensei tem a respeitabilidade da comunidade até os dias atuais,onde atua como professor de karate e yoga e tem um consultório de massagem oriental.Continuando sem beber e fumar. Seguindo uma alimentação voltada para o naturalismo.Um verdadeiro exemplo de vida centrada nos caminhos do budo.

Neste mesmo período lia muito sobre artes marciais,terapias orientais e filosofias afins.Aprendia ao ler a revista DO,que marcou época na marcialidade brasileira no final da década de 70 e inicio da de 80,que as artes marciais era um caminho filosófico e espiritual.Nesta mesma revista lia sobre os mestres e os via como pessoas perfeitas.O que é um ledo engano.Algo que acabei descobrindo, com tristeza, algum tempo depois.Pois na teoria é tudo lindo.Mas quando chega na aplicabilidade dos princípios espirituais e filosóficos marciais a coisa muda de figura.

A ´´FEBRE DO KUNG FU“ que predominava no final da década de setenta,devido aos filmes de Bruce Lee,no cinema,fizeram com que todos se voltassem para as artes marciais. O seriado de TV intitulado KUNG FU,estrelado por David Carradine,levou todos a se voltarem para a espiritualidade na marcialidade.E foi neste clima que MARCO NATALI,lançou o primeiro livro de kung fu em nosso pais,cujo título foi TÈCNICAS BASICAS DO KUNG FU,pela Edições de Ouro,seguindo logo depois com uma variedade de obras relacionadas as artes marciais e terapias orientais.Ainda nesta época chegava nas bancas e livrarias as obras , de cunho didático, de judo e karate da autoria do saudoso mestre marcial, OSWALDO DUNCAN.

Isto possibilitou-me ter uma paixão pelas artes marciais,e ao mesmo tempo também para diversas pessoas,em todo o Brasil, o afloramento amoroso pela marcialidade e temas afins.

Mas dentro deste clima tenho ainda minha primeira decepção nas artes marciais.Ao fazer exame para mudança de faixa em Itapetinga veio até esta cidade o saudoso Denílson Caribé, que já conhecia através da extinta revista marcial DO,A REVISTA DAS ARTES MARCIAIS.O tinha como um mito do contexto filosófico e espiritual dentro da marcialidade,pois era isso que lia nos livros e nas revistas marciais,só que suas praticidades marciais eram completamente diferentes do que aprendia cotidianamente com o Sensei Joan Lemos e o que havia lido.Hoje compreendo a importância do saudoso Denílson Caribe para o karate baiano,mas naquele momento da minha vida,não tinha ainda condições de fazer uma analise critica,pois os meus juízos de valores eram outros.

Ao saudoso Denílson Caribe cabe os louvores de ter conduzido o karate baiano para uma credibilidade nacional.Com ganhos memoráveis nos campeonatos e a liderança de uma organização técnica desportiva dentro do karate baiano de caráter impar.Porém algumas de suas atitudes radicais em torno do karate se fossem hoje seriam inaceitáveis.Tanto é que se este grande Mestre estivesse vivo teria que repensar e modificar muito as suas atitudes marciais,para dar continuidade no mercado karateista,não somente baiano,como nacional.

Na FOCCA de Olinda, em conversa com Raul Kawamura. Na direita Sensei Hayashi Kawamura. Segundo plano Ana Baudequin(do Bubishi) e Andre Farkatt

Na FOCCA de Olinda, em conversa com Raul Kawamura. Na direita Sensei Hayashi Kawamura. Segundo plano Ana Baudequin(do Bubishi) e Andre Farkatt

 

 

O KARATE DEPOIS DE ITAPETINGA

 

 

Em 1982,me mudei para Nazaré,a ´´terra da farinha`´,cidade do interior da Bahia,próxima a capital baiana,que ficou nacionalmente conhecida pelo fato de ser a cidade natal do famoso jogador Vampeta.Nesta cidade tomei como surpresa ao saber que lá não existia a prática do karate.Devido a isso acabei resolvendo iniciar a ministrar aulas desta arte marcial nipônica .Tendo como meu primeiro aluno o,hoje faixa preta,GILDENIRO RIBEIRO LIMA,que após minha saída desta cidade me substituiu com grande destaque na docência marcial.

Pouco tempo depois de ter iniciado a ministrar aulas de karate em Nazaré me desloquei para Salvador ,capital baiana,onde procurei o saudoso Denílson Caribé,com o objetivo de obter orientações de como me filiar a FEDERAÇÃO BAIANA DE KARATE(FBK),única entidade federativa de karate existente na Bahia naquela época,para deixar de ser um ´´clandestino´´,como era denominados os karateistas não filiados a FBK.Fui falar com o Mestre Denílson Caribé na sede da ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA DA BAHIA,onde estava sendo realizado um treinamento para faixas-pretas.Nesta oportunidade o saudoso Denílson Caribe ao saber que tinha sido aluno do Sensei Joan Lemos,na cidade de Itapetinga,me deu pouca atenção.Devido ao fato dele ter um problema pessoal com o Joan Lemos,meu primeiro professor de karate,que até os dias atuais não sei do que se trata.Mas mesmo assim o Mestre Denílson Caribe me mandou procurar no Palácio dos Esportes,localizado na Praça Castro Alves,no centro da capital baiana,o então presidente da Federação Baiana de Karate(FBK),o saudoso FAUZI ABDALA JOÃO, que foi um dos maiores conhecedores de legislação esportiva deste nosso pais.Então no outro dia fui até a sede da FBK,falar com o seu presidente.Lá chegando o saudoso Fauzi Abdala João,me tratou muito educadamente,mas me colocou uma multiplicidade de dificuldades para a ministração das aulas de karate em Nazaré,que acabou me impossibilitando de filiar a FBK.

Retornei para Nazaré e fundei o CLUBE DE KARATE DE NAZARÉ,que acabou se filiando a FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE ARTES MARCIAIS,com sede no Rio de Janeiro,capital,e presidida pelo grandioso Mestre EMERSON BERNARDO MARTINS,que se encontra esquecido dentro da marcialidade devido as multiplicidades de ingratidões reinantes entre os marcialistas brasileiros.Neste momento junto comigo se filiaram a esta entidade federativa diversos ex-colegas de karate,todos vindos do dojo do Sensei Joan Lemos em Itapetinga,que algum tempo depois devido as pressões políticas se desfiliaram do Mestre Emerson Martins.

 

DE CRUZ DAS ALMAS PARA SALVADOR

Em 1984 já mais experiente me mudei para Cruz das Almas,interior da Bahia, e fundei, junto com o CRISPIM CERQUEIRA ALMEIDA, a ASSOCIAÇÃO INTERIORANA DE ARTES MARCIAIS,que abrilhantou, enquanto existiu, a marcialidade neste municipio.

Em 1985 retornei a capital baiana e comecei a me dedicar ao estudo universitário e a ministração de aulas em colégios de primeiro e segundo graus,bem como uma intensa atividade jornalística.Dedicando-me a treinar karate com a supervisão do Mestre SERGIO BASTOS,da Drakon,atualmente um dos grande lideres do karate tradicional na Bahia. Desde 1984 passei a treinar outras artes marciais,além do karate,tais como o hapkido,taekwondo,tai chi chuan,kickboxing,aikido,full contact,jiu-jitsu,goshin-jitsu,chin-nah,sabakí e judô, todas como mero diletantismo,não atuando na docência de nenhuma delas.Inclusive durante esta minha trajetória marcial fiz várias viagens até o Rio de Janeiro e São Paulo,para manter contatos com outros marcialistas e treinar outras artes marciais e estilos de karate,que não o shotokan,que até os dias atuais na Bahia, e boa parte do Brasil,se caracteriza por ser um estilo soberano devido aos interesses pessoais de algumas lideranças deste estilo em nosso pais.

Em 1989 conheci o Mestre Antonio Souto Aderne, que foi um dos fundadores da Federação de Karate Tradicional da Bahia,me tornando seu aluno de karate,algo que me orgulho muito,devido ao fato de ter com ele aprendido muito sobre os conteúdos teóricos e práticos do karate e afins.Foi também na década de oitenta que acabei conhecendo o meu grande amigo e líder do karate de semi- contato na Bahia,o Shiran CATARINO OLIVEIRA.

Participei da fundação da FEDERAÇÃO DE KARATE POINT,em 1993,e atuei como vice-presidente desta entidade,sendo em alguns momentos o seu presidente,devido a flexibilidade administrativa do então presidente desta federação karateista ,o meu grande amigo Shiran CATARINO OLIVEIRA.Sendo que em 1996 criei a CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE KARATE DE SEMI-CONTATO,atuando como seu presidente desde a sua fundação.

Durante os anos de 1986 até 1988 fui professor de karate na extinta academia e clínica Sr. e Sra.,no bairro da Pituba,em 1989 até 1991 fui professor de karate na Clínica Raízes,na qual era um dos sócios,no bairro de Brotas,e no Pragita Rajnesh Ashram,no bairro da Amaralina,tudo isso na capital baiana.

Em 1991e 1992 atuei como professor no curso de karate para crianças, em nível de extensão,no Departamento de Educação Física da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia(UFBA),tendo a coordenação do professor ADMILSON SANTOS,o ´´AD´´.Nesta oportunidade a extinta revista KIAI,especializada em artes marciais,publicou diversos artigos sobre meus trabalhos relacionados ao karate e terapias orientais na Universidade Federal da Bahia(UFBA).

Participei de diversos cortes epistemológicos dentro do karate na Bahia.Um deles foi o aparecimento de diversas federações de karate a partir do final da década de oitenta,quando surgiu a Federação da Karate Tradicional da Bahia,que se caracterizou como sendo a primeira federação de karate surgida depois da Federação Baiana de Karate(FBK).Foi um ´´Deus nos acuda´´,pois a FBK não aceitava a criação da Federação de Karate tradicional e houve dezenas de celeumas expostas na imprensa baiana e nacional ,envolvendo estas duas entidades federativas.

Muitas histórias e estórias existem nos bastidores da marcilidade da Bahia que acabaram me envolvendo,direto ou indiretamente,e que me levaram a perceber como meu trajeto dentro do karate e nas outras artes marciais me possibilitaram ter uma melhor análise do mundo,para observar ainda mais os paradigmas, atuais e passados, existentes.

 

 

José Augusto Maciel Torres

 

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